Processo de Criação

“Não me pergunte se isso tem cabimento… se tivesse, caberia em algum lugar, e eu então guardaria essa loucura…” (Andréa Muniz)

O espetáculo “Devaneios” foi criado pelo Grupo Fuzuê Teatro de Animação através de um processo colaborativo de seis meses, e que continua aberto e in progress.

As linguagens exploradas são as do teatro de bonecos, das formas animadas, da sombra e luz e dos objetos, calcados pelos conceitos do Teatro Visual e de uma Dramaturgia da Visualidade.

Bases Conceituais: Processo Colaborativo, Teatro de Animação e Dramaturgia da Visualidade.

Compreendemos o “processo colaborativo” como um processo de criação e gestão cultural que busca a horizontalidade nas relações entre os criadores do espetáculo teatral. Isso significa que busca prescindir de qualquer hierarquia pré-estabelecida e que feudos e espaços exclusivos no processo de criação são eliminados. Em outras palavras, o palco não é reinado do ator, nem o texto é a arquitetura do espetáculo, nem a geometria cênica é exclusividade do diretor. Todos esses criadores e todos os outros mais colocam experiência, conhecimento e talento a serviço da construção do espetáculo de tal forma que se tornam imprecisos os limites e o alcance  da atuação de cada um deles.  Preferimos denominar essa experiência criativa e coletiva, que tem sido objeto de estudo e desenvolvimento na Escola Livre de Teatro[1], de Santo André, com o nome de PROCESSO COLABORATIVO (e não método colaborativo) não só para preservar o caráter vasto e intuitivo da criação, como pelo cuidado, nunca desnecessário, de não objetivar excessivamente o fim pretendido.

Com relação ao Teatro Visual e a Dramaturgia da Visualidade, que baseia este trabalho, os criadores deste teatro são espécies de “escritores visuais” que utilizam um vocabulário em que a imagem é o meio determinante, evidenciando assim a natureza espacial de sua estrutura, a combinação e a montagem (como base de seu pensamento).

Essa maneira de escrever supera o suporte bidimensional do plano (papel/ tela) e desenvolve-se em três dimensões (o espaço). Por sua capacidade de utilizar e jogar com os mais variados elementos, bonecos, objetos, atores, o Teatro Visual instaura uma nova ordem na organização cênica da imagem, que vai muito além da “mimesis” tradicional.

Como é baseado na criação de imagens visuais, o desfecho, em geral, não chega a conclusões racionais. É um teatro de visões construídas, em que o papel da literatura na criação teatral é reduzido e, por vezes, eliminado, rompendo progressivamente e definitivamente as fronteiras do teatro com as artes plásticas. (Considerações acerca do Teatro Visual e da Dramaturgia da Visualidade, por Wagner Cintra, UNESP. Revista Móin Móin nº 12. SCAR/ UDESC, 2014).

Para a realização do espetáculo, o Grupo Fuzuê Teatro de Animação pesquisou e experimentou as quatro dimensões de uma Dramaturgia da Visualidade:

1ª Dimensão: A dramaturgia do espaço, experimentados através de vivências e oficinas sobre o potencial dramatúrgica do corpo, dos ensaios e do próprio arranjo técnico do espetáculo.

2ª Dimensão: A dramaturgia da matéria, através da pesquisa de materiais para a construção de objetos cênicos, simulacros e também do uso de objetos per si no espaço.

3ª Dimensão: a dramaturgia da forma, com a exploração através de experimentações dos limites entre o inanimado e o animado, entre o humano e a matéria e seu potencial para gerar significados.

4ª Dimensão: a dramaturgia do movimento, considerando este como vital para a criação de um teatro de animação, no sentido profundo de ânima, de ativação e transferência de energias entre animador e inanimado.

Todos este saberes, fazeres e vivências são compartilhados e ampliados pelo Grupo Fuzuê Teatro de Animação através de Oficina sobre o processo de Devaneios, aberta ao público.

[1] A Escola Livre de Teatro de Santo André (São Paulo), mais conhecida como ELT, foi criada em 1990 na primeira gestão do prefeito Celso Daniel na cidade. Hoje a ELT é uma referência na formação teatral internacionalmente reconhecida pelo seu método inovador e pioneiro de trabalho, embasado na pedagogia da autonomia, na gestão coletiva e no processo de criação colaborativo, questões estas que influenciaram diretamente no modo de trabalho dos grupos de teatro paulista, conhecido como “Teatro de Grupo”. A ELT serve de exemplo para várias outras escolas livres que se criaram no país a partir da sua experiência.

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