Pesquisa sonora em Devaneios: a heterofonia, por Richard K. Lipke

A trilha sonora do espetáculo Devaneios tem como ponto de partida a escolha pela textura heterofonia e a lista dos afetos (estranheza, inquietação e sofrimento) inicialmente sugeridos pelos enredos das cenas relidas musicalmente em duas sessões de improvisação: a solo ao teclado e de uma feita pelo grupo. Também gravações de paisagens sonoras diferentes da região metropolitana de Porto Alegre. Além desses elementos inéditos, uma canção de Jacques Brèl – Ne me quitte pas e algumas peças do repertório histórico ocidental.

A heterofonia é a textura[1] introduzida já no século XX através de experimentos de compositores como Krzysztof Penderecki, Charles Ives que expandem a noção primeira do termo feita pelos musicólogos para descrever a música trovadoresca da Idade Média europeia, em que os instrumentistas (jograis) realizavam variações em torno da melodia cantada pelo menestrel. Este conceito também se aplica à música vocal de outras épocas e regiões em que os instrumentos realizam versões ornamentadas da parte vocal, como no estilo policoral veneziano.

Outras características da heterofonia poderiam ser:

– emprego de planos sonoros distintos;

– colagem de materiais diversos, muitas vezes oriundos de diferentes culturas ou práticas musicais como no fusion criado por Miles Davis ou as técnicas poliestilísticas de Alfred Schnittke;

– emprego de citação, em que são citados textualmente trechos de outras peças musicais, através de fragmentos melódicos, padrões rítmicos ou seqüências harmônicas reconhecíveis, como fez Luciano Berio, em sua Sinfonia;

– uso de alusão, em que as técnicas típicas de outros estilos, gêneros ou peças particulares são empregados com o sentido de fazer referência a elas – um exemplo seria o Modern Jazz Quartet (John Lewis) em relação às técnicas contrapontísticas de Johann Sebastian Bach.

– aproveitamento de técnicas pontilhistas, onde as partes interagem pontualmente e não como linhas melódicas independentes – ex. a orquestração de Anton Webern para o Ricercare a 6, da Oferenda Musical, de J. S. Bach.

[1] Textura é a forma como o tecido sonoro se entrelaça, através da combinação entre as diversas partes que soam simultaneamente, gerando a sonoridade de um segmento musical. Os principais tipos de textura musical são: monofonia, polifonia, homofonia, melodia acompanhada e heterofonia. (Disponível em http://prolicenmus.ufrgs.br/repositorio/moodle/material_didatico/musica_aplicada/turma_def/un07/links/slide_matapoio_texturas_musicais/Texturas_Musicais.pdf)